domingo, 29 de março de 2015

690 - «O MEDO» - MARIA AMÉLIA NETO

690

  O  MEDO

Surgiu
Por detrás
Da nuvem escura
Que tapou a lua.
Escorregou
Sobre a planície
Negro
Envolto
Em longas chamas.
Era meu.
Pertencia-me.
Era o medo.

MARIA AMÉLIA NETO



sábado, 21 de março de 2015

687 - «ECCE HOMO» - JOÃO RUI DE SOUSA

687

ECCE HOMO

Dói-me habitar esta palavra
amarga
este temor
esta voz íntima
este jeito pobre
no agir
esta luz mortiça
e devagar
a capa mole
de sombra e de fuligem
este amarelo dos dedos
e da esperança
este roer de unhas 
e cansaço
esta viagem certa
por paízes estranhos
esta inocência surda
e rumorosa
esta maneira funda
de sentir
de amar o próximo
ou esta vulgar dor
só de existir.
É uma pequena guerra
em que me afundo
este habitar sem armas
a tristeza
-- não saber o mundo.

JOÃO RUI DE SOUSA

terça-feira, 17 de março de 2015

684 - «QUADRANTE I» - JOÃO RUI DE SOUSA

684

QUADRANTE I

                  Óleo de Almada Negreiros
                           Exposição Gulbenkian, 1958

Recalcadamente vago e cego e agudo
contemplo o teu perfil exacto
de esmeril:

Cantante, embora mudo.
Errado, embora vão.
Certíssimo
(certo ou errado?)
na doida exactidão
dum astro
escuro e vivo.

JOÃO RUI DE SOUSA