sexta-feira, 9 de maio de 2014

427 -- UM MORTO DEU À COSTA - PEDRO SILVEIRA

427

UM MORTO DEU À COSTA

Tão sereno o rosto dele! e tão belos,
serenamente abertos, os seus olhos azuis!
-- Nâo lhes tocaram os peixes, não quizeram
violar-lhe  (quem sabe!) aquela serenidade.

Nada lhe dizia o nome, a pátria, o navio
que foi a casa dele de porto em porto,
-- Seria um santo? acaso El-rei Dom Sebastião?
-- Nunca se soube quem era o Capitão Morto .

A sortilha no dedo: seu sinal de casado.
E um canivete e um rosário no bolso da farda.
Mas nada que dissesse, de escrito, o seu nome!
-- O Capitão Morto que botaram no mar...

Um padre-nosso por alma do Santo
Capitão Morto arrojado p`lo mar...

Pedro da Silveira 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

426 - «CONTENTE NUNCA ESTOU ...» REINALDO FERREIRA

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426

«CONTENTE NUNCA ESTOU...»

Contente nunca estou; feliz não sei

Se existe alguém ou neste ou noutro mundo.
Vou para o Nada, sou do Nada oriundo,
E entre dois Nadas desventura é Lei.

Da cobarde esperança emancipei

A previsão do meu destino imundo.
Sou consciente do mal em que me afundo,
E consciente do mal continuarei.

Nem revolta me fica, apenas pressa

De me tornar por fim parada peça
No cósmico rolar nefasto e louco.

Depois quero dormir um sono enorme...

Que para uma aflição que nunca dorme,
A morte, temo bem que seja pouco.

Reinaldo Ferreira

quarta-feira, 7 de maio de 2014

425 - AFOGADO NO RIO LEÇA - EGITO GONÇALVES

425

AFOGADO NO RIO LEÇA

Vogavas entre duas águas com o corpo torcido
e a corrente impelia-te, vagarosamente. para a foz.
O coração batia mas já não respiravas;
a morte instalava-se  no teu corpo molhado.

Degavar montava a máquina dos sonhos...
devagar armava-te as futuras asas.
No mar afundam-se os símbolos da tarde;
enovelado, sem poesia, asfixiavas,
descendo o rio em direcção à liberdade.

As unhas violácias, os cabelos flutuando,
o sangue estrangulado, a fome liquefeita...

Então, como a um menino, alguém te conduziu para a
                                                    [margem relvada.
A morte sentou-se a ver os trabalhos de respiração
                                                      [artificial,
depois disse -te «Adeus», acenou-te »Até breve«,
e aproveitou a ambulância que te levava ao hospital
para ir mais depressa à sua vida.

Egito Gonçalves  

segunda-feira, 5 de maio de 2014

424 - O CANTO DE ORGE -- BERTOLT BRECHT

424

O CANTO DE ORGE

Dizia-me Orge:


                     1

O  lugar que na terra amamos mais
Não é a relva do túmulo dos nossos pais.

                      2

Dizia-me Orge: para mim o lugar que
Mais se deve desejar será sempre W.C.

                      3

Nesse lugar é permitida a cada um a alegria
De ter por cima a estrela, e, por baixo, a porcaria.

                     4

Lugar admirável on de po--
De adulto ficar só.

                     5

Lugar de humildade: nele saberás bem
Que não passas de um homem que nada retém

                     6

Lugar onde um corpo que no assento repousa
Faz com força e doçura por seu bem qualquer cousa

                     7

Lugar de sabedoria onde podes com lazer
Preparar a tua pança para muito outro prazer.

                      8

Nele te darás conta do que realmente és:
Um pobre tipo que come....nos ww. cc.

Bertolt Brecht



sexta-feira, 2 de maio de 2014

423 - XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO - CARLOS DE OLIVEIRA

423

XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO

                 1
Era outrora um conde
que fez um país,
com sangue de moiro,
com laranjas de oiro
como a sorte quiz.

Há bruxas que dançam
quando a noite dança,
são unhas de nojo,
são bicos de tojo,
num tambor de esperança.

Ventos sem destino
que dizeis às ramas?
Desgraça bramindo
é a nós que chamas.

No país que outrora
um conde teceu
com laranjas de oiro,
com sangue de moiro,
tudo apodreceu.

Anda o sol de costas
e as bruxas dançando
e os ventos do norte
sobre nós espalhando
as tranças da morte.

As estrelas mortas
apagam-se aos molhos:
vem, lume perdido,
florir-nos os olhos.

                2

Ama, estarás ouvindo
a história que vou contando?
Ó ama pátria dormindo
desde quando?

Desde tempos e memórias,
desde lágrimas e histórias,
desde cóleras e glórias,
agora te estou chorando
e tu dormindo
até quando?

As bruxas andam lá fora
e eu chorando
versos do país de outrora.

Dançam bruxas a ganir
de mãos dadas com o vento.
Ama, acorda; sopra o lume;
e não me deixes dormir
na noite do pensamento.

               3

Ó castelos moiros,
qrmas e tesoiros,
quem vos escondeu?
Ó laranjas de oiro,
que vento de agoiro
vos apodreceu?         

Há choros, ganidos,
há luz da caverna
onde as bruxas moram,
onde as bruxas dançan
quando os mochos amam
e as pedras choram.

Caravelas, caravelas,
mortas sobre as estrelas
como candeias sem luz;
e os padres da inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa cruz.

As bruxas dançam de roda
entre o visco dos morcegos,
dançam de roda, de rojo,
dançam voando, rasgando
a noite morta do povo
com as unhas, bicos de tojo.

                 4

E o tempo murchando
a luz de idos loiros.
Ama, até quando
estaremos chorando
os castelos moiros?

Lá vão naus da Índia,
lá se vão tesoiros.
E as bruxas dançando
e os ventos secando
as laranjas de oiro

Ama, até quando?

Na noite das bruxas
o lume no fim
e o vento ganindo.

Ama, estarás ouvindo?

O lume no fim
e os homens dispersos.

Ama, tens frio;
cinge-te a mim
e aquece-te ao lume
queimando os meus versos.

                              (Mãe Pobre, in Poesias, 2ª.ed. revista)

Carlos de Oliveira

422 - AMÂNDIO CÉSAR - QUE HORA É ESTA?

422

QUE HORA É ESTA?

É em vão que o sol doira
As asperesas da terra:
Secou na seara loira
Toda a esperança que ela encerra.

Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.

É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.

Para quê  lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por ter sofrido
Esta angústia que não finda.

Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
-- Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.

Cansaram-nos assim de tudo,
Todos nos pesam demais
-- Os poetas são jograis
E o cantar quase mudo

                 (As Margens da Memória)

Amândio César


quinta-feira, 1 de maio de 2014

421 - FRANCISCO JOSÉ TENREIRO - CANÇÃO DE FIÁ MALICHA

421

CANÇÃO DE FIÁ MALICHA

«Lenço di seda 
                        .... Seda càbou!»
                                 O branco arregalou os olhos:
                                        Negrinha tão tenra
                                       de peito durinho!
«Saia de pano 
             .... Pano càbou!»

                       No sòcòpé  seu branco a tomou:
                                Negrinha tão tenra
                                 de riso tão largo!

«Vinho di plôto
                  ....Plôto acabou"»

                           Seu branco deu tudo:
                               «té roça montou!«

                           
                           Mas mina piquina
                                        tudo càbou....
                                      
                                        (Ilha de nome Santo)  a)

Francisco José Tenreiro

a) S. Tomé